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Precisamos enfrentar verdades desconfortáveis

  • Foto do escritor: Lena_Administrator
    Lena_Administrator
  • 10 de fev. de 2018
  • 5 min de leitura

Já ouviu falar da artista sul coreana @henn_kim ? O trabalho dela é fantástico! Escrevi o seguinte artigo de opinião sobre machismo e estupro em nossa estrutura social inspirado em suas ilustrações.


Caro homem leitor,

É, você mesmo. Tenho uma pergunta a lhe fazer: Porquê você me odeia? Ás vezes sinto como se todos me odeiam pois todos vivem dizendo que foi minha culpa. Minha culpa por ter decidido sair de casa desacompanhada, ou minha culpa pelo comprimento de saia que decidi usar, ou ainda minha culpa por me passar nos drinks. A culpa é pior ainda se o que me aconteceu foi feito pelo meu parceiro íntimo (sendo ele um namorado ou marido). Isso porque há um estranho entendimento de “senso comum” de que se eu concordei em me relacionar com determinado homem, eu automaticamente mereço o que vier deste relacionamento, afinal foi uma escolha minha.

Por favor, eu não consigo compreender, porquê você me odeia? Porque sou eu a culpada se não fui eu a cometer a violência? Pare e pensa comigo um pouquinho, como pode ser minha escolha ser sexualmente violada? Minhas escolhas quanto ao meu vestuário, hábitos de consumo de bebidas alcoólicas e círculos sociais NÃO SÃO SINÔNIMOS com escolher ser agredida. Ninguém jamais colocou este poder nas minhas mãos. Mas, você homem espectador, gosta de pôr a culpa sobre minhas costas que a verdade crua é que a ÚNICA escolha que importava na ocasião da violência que eu sofri foi a do homem que a propagou. Ele foi o único a escolher quando e como ele abusaria de mim. E sinto dizer homem espectador, mas você é quem deu a ele este poder. Pois você como parte da nossa estrutura social constantemente reforça que eu, como mulher, sou o sexo frágil. Entretanto, de forma muito contraditória você me julga de forma muito hostil quando sou fraca e vulnerável. Não é exatamente isso que você quer que eu seja? A donzela em perigo é o papel que sou forçada a interpretar. Você precisa entender que, por mais que seja muito divertido jogar como o herói masculino no videogame numa jornada para salvar a princesa, isso traz o oposto de segurança para mulheres de verdade. Pois homens maliciosos tomam vantagem de nossa vulnerabilidade, sendo esta física e ou emocional para: soltar um comentário extremamente invasivo e inconveniente sobre nossos corpos, agarrar nossa bunda numa festa, nos desviar de um táxi que nos levaria até em casa quando estamos bêbadas, nos empurrar para algum canto mal iluminado, nos forçar a atos sexuais do quais não queríamos participar dentro de nossas próprias casas. E esses homens se sentem com autoridade e propriedade para fazer todas essas coisas horríveis porque nossa cultura pop incessantemente nos coloca num papel de total submissão. Nós mulheres, NÃO escolhemos que tais coisas nos acontecessem! Então lhe pergunto: porquê a palavra “molestada” virou sinônimo de “suja”? Porquê sou eu quem tem que viver tendo a palavra “estuprada” estampada na minha testa, quando ninguém nem menciona meu agressor? E mais, porque você nunca me permite falar a respeito de estupro, do meu estupro? Você precisa parar de tirar minha voz porque a violência sexual é um problema muito real da nossa sociedade.

Eu lhe garanto que uma mulher próxima de você já foi violada, meu caro homem espectador. Talvez uma amiga ou colega de trabalho, uma conhecida da faculdade, uma irmã, prima ou tia, quem sabe ainda possa ter sido sua própria mãe ou esposa. Mas você não sabe porque essa mulher vive paralisada em meio a vergonha que você (sociedade) impõe a ela a ponto de ela ser incapaz de admitir o que aconteceu com ela. Você vê, homem espectador, eu não quis isso para mim, mas como fui estuprada e então reprimida, todos os dias eu ando sobre minhas más lembranças sozinha. Alguns dias são mais difíceis do que outros. Alguns dias é horrível devido a alguma coisa do meu cotidiano ter engatilhado um flashback muito vivido.

Mesmo nos dias bons, não estou totalmente livre pra aproveitá-los plenamente pois o que ele fez comigo, deixou esse lindo vazio no meu peito que jamais se preencherá enquanto eu mantiver isso só pra mim mesma.

Então, homem espectador, porque você me silencia? Estou exausta de usar essa máscara de falsa felicidade só pra lhe poupar da feiúra da violência sexual. Não me leve a mal, homem espectador, não estou te acusando. Não foi você que se forçou para cima de mim.

Eu escrevo este texto porque eu preciso que você entenda que Eu não estou brava, estou ferida (emocionalmente) E tudo que lhe peço é que você aceite a minha dor como legítima. Sou uma mulher forte. Sigo cumprindo com minhas responsabilidades, mas isso não apaga o que me foi infligido.

E eu estou cansada de guardar tudo aqui dentro, já o fiz por nove anos. Já basta! Estou cansada, então me permita estar quebrada uma vez na vida. Me permita explodir em pranto. Porque se eu não o fizer, nunca serei capaz de me curar. Mas, mais importantemente, eu preciso que você reconheça que foi ele quem me estuprou e que a culpa é somente dele.

Nossa sociedade meritocrática é uma faca de dois gumes. Por um lado, é maravilhoso receber reconhecimento pelo seu esforço e boas ações. Todo mundo gosta de um tapinha no ombro que nos parabeniza por um trabalho bem feito. Porém, por outro lado, o discurso meritocrático dita que todo que nos acontece é fruto de nosso merecimento. E isto simplesmente não é verdade. Ninguém merece uma doença crônica devastadora, ninguém merece passar fome, ninguém merece ser estuprado. Nem mesmo o homem que me estuprou. Muitas vezes a vida simplesmente acontece e acontece de forma injusta. Algumas coisas simplesmente não podem ser previstas ou prevenidas, mas outras sim.

Violência sexual é uma delas. Quando você, homem espectador, me permite o poder de retirar-me do papel de vítima, eu finalmente sou capaz de lavar-me das más lembranças e vê-las descer pelo ralo e que eu possa secar minhas lágrimas. Quando você permite que eu lhe eduque a ser mais cuidadoso com suas próprias atitudes e a reprimir os homens de seus círculos sociais quando eles tiverem má conduta, você deixa de ser alguém que consente passivamente com a violência sexual. Você finalmente se torna o verdadeiro herói que os videogames não mostram: um homem que salva mulheres de uma torre de opressão ao decidir lutar lado a lado delas por uma sociedade mais compassiva e pacífica.

Este texto foi inspirado pelas ilustrações da artista sul coreana Henn Kim. Os desenhos exibidos aqui são todos de autoria dela e as frases em negrito do texto são citações diretas ou adaptadas das legendas das respectivas ilustrações no instagram dela. Por favor confiram o trabalho dela em @henn_kim. A arte dela realmente fala comigo e espero que possa inspirar vocês também.

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